Cada palavra

O avô pega o papel em branco e escreve uma palavra. Passa o papel para o menino e o incentiva a escrever outra na frente. A partir das duas, o homem inventa uma frase. Mais duas palavras pensadas de improviso, mais uma oração. E assim continua a brincadeira. De palavra em palavra, de metáfora em metáfora, o avô foi construindo no pequeno Bartolomeu Campos de Queirós a paixão pelas letras que virou, tempos depois, amor pelos livros e pela literatura*.

Foi justamente sobre esse amor (e como despertá-lo em outras pessoas) que o Pra Ler conversou com Bartolomeu em julho de 2011. A entrevista fez parte de uma reportagem sobre movimentos de incentivo à leitura, que foi ao ar no dia 18 de agosto. A íntegra da conversa com Bartô, entretanto, ainda estava guardadinha nos nossos arquivos, inédita. Vamos ouvir agora as palavras do escritor sobre o que ele tanto amava:

*O caso de amor de Bartolomeu pelas palavras foi contado em entrevista ao Projeto Paiol Literário, realizado pelo Jornal Rascunho, no dia 07 de junho de 2011. Os melhores momentos da conversa podem ser lidos aqui.

A homoafetividade em obras literárias

Não é possível categorizar certo tipo de literatura como homoerótica. Foi o que a reportagem do programa 18,  que foi ao ar na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM), apresentou. Temas ligados à homoafetividade aparecem em obras literárias brasileiras há muito tempo e de diferentes formas. Como autores contemporâneos estão falando sobre o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo? Confira abaixo escritores e escritoras que tratam da homoafetividade em suas produções literárias.

João Silvério Trevisan

“Eu, enquanto homossexual, não nasci predestinado pra escrever com uma tendência poética. Não há predestinação na poesia. Minha experiência homossexual naturalmente marca a minha poesia, naturalmente marca a minha abordagem, mas ela não determina um estilo. Mesmo porque eu não sou apenas homossexual, há um monte de outras coisas que me compõem e que certamente compõem o meu caldo de cultura que me leva a escrever”. Escritor, tradutor, jornalista, diretor de cinema, João Silvério Trevisan nasceu em Ribeirão Bonito, São Paulo, em 1944. É militante e ativista LGBT. Na década de 70 fundou o grupo Somos, que defendia os direitos dos homossexuais. João Silvério escreve ficção, poesia, ensaios, dramaturgia e roteiros.

Silviano Santiago

“Compete aos heterossexuais, isso sim, mudar de comportamento, adotando normais contratuais de tolerância. Não compete ao homossexual introjetar a culpa pela conduta dita desviante, punindo a si pela expiação e, por aí, chegando a adotar normas contratuais de vida pública em que se auto-exclui da sociedade como um todo em vias de normatização”. Esse é um trecho do ensaio “O homossexual astucioso”, do mineiro Silviano Santiago. Silviano é ensaísta, poeta, professor,contista e romancista. É autor de “O olhar”, “Stella Manhattan”, “Uma história de família”, “Keith Jarrett no Blue Note”, “Nas malhas da letra” e muitas outras obras literárias.

Bernardo Carvalho

“A literatura é a possibilidade de escapar de um lugar no mundo, que é humano e restrito. Nenhum livro meu deixa de ter relação homossexual”. Esse é Bernardo Carvalho, o autor de “Aberração”, “Mongólia”, “O filho da mãe” e outros romances. Bernardo Carvalho é jornalista e um dos maiores escritores contemporâneos.

Márcia Denser

“A busca de um amor impossível, de um sexo previsível, mas raramente a constatação da entrega. Jamais os personagens de Márcia Denser se permitem a alegria integral, o orgasmo espiritual”. Esses são alguns traços da obra da paulistana Márcia Denser observados pelo escritor e jornalista Bernardo Ajzenberg.  Márcia é autora de livros como Tango fantasma, O animal dos motéis e Exercícios para o pecado. Escreveu o prefácio do volume II  de “O caio em 3D, O Essencial da Década de 80”, do amigo Caio Fernando Abreu. “Éramos culturalmente parecidos: contestadores, oustsiders, tínhamos um trabalho radical”.

 João Gilberto Noll

O escritor gaúcho João Gilberto Noll é autor de “O Cego e a Dançarina”, “A Fúria do Corpo”, “Acenos e Afagos”, “Anjo das Ondas” e mais uma dezena e meia de livros. Para o pesquisador Marcos Jesus de Oliveira, “a estética do autor transgride os discursos existentes sobre o sexo e revela a natureza incompleta e contingente das ideologias e verdades oficiais a respeito da homossexualidade, contribuindo para expor as ambivalências e antinomias próprias dos discursos dominantes e de suas estruturas de poder”.

Ao pé da letra [2]

E a brincadeira continua! Pare de pensar na morte da bezerra e tente adivinhar o significado correto das palavras e expressões abaixo. Lembrando que, para saber a resposta, é só selecionar a linha abaixo da última alternativa de cada questão.

De onde surgiu a palavra larápio?

a) Na Grécia Antiga, os ladrões e assassinos eram condenados a cumprir prisão perpétua na ilha de Larapos, ao sul de Creta

b) Em latim, larapare significa ‘desviar do destino’

c) Em Roma, havia um juiz chamado Lucis Antonius Rufus Appius que dava sentenças em favor de quem lhe pagasse mais. Sua rubrica era L.A.R.Appius

Alternativa c

Quem começou com a fofoca?

a) A palavra descende alguma língua africana do grupo banto e o primeiro registro oficial em dicionário brasileiro é só de 1975.

b) Este é o nome da primeira revista de colunismo social do país, que apareceu no Rio de Janeiro em 1907. A publicação teve apenas seis edições.

c) Benito Foffochi, filho de italianos, era o responsável por redigir as correspondências oficiais do presidente Eurico Gaspar Dutra. Ele contou muitos segredos do general para a imprensa da época quando deixou o governo.

Alternativa a

De onde veio a palavra calote?

a) Calote era um golpe muito comum nas ruas do Rio de Janeiro imperial, em que jovens ladrões roubavam objetos de valor das pessoas enfiando as mãos nos bolsos e usando somente a ponta dos dedos

b) Culotte, em francês, é o nome que se dá às pedras que restam na mão do jogador após uma partida de dominó. O termo também passou a ser usado para os títulos que ficam na mão do credor e jamais serão quitados

c) No castelhano antigo, calotear era o mesmo que esquivar de um touro. Depois, o verbo passou a ser usado para quem se esquivava de um pagamento.

Alternativa b

Como surgiu o dito ‘pensar na morte da bezerra’?

a) Na realidade, a expressão original é ‘pensar a morte do Bezerra’ e vem do período da República Velha. Francisco Cavalcante Bezerra foi um político da oposição assassinado na véspera de uma eleição local em Pernambuco.

b) Durante a seca que assolou o Nordeste no início do século passado, a morte de animais fêmeas era mencionada nos discursos dos padres. Os fieis acreditavam que a falta de chuva era castigo divino e ficavam meditando sobre o assunto durante a missa.

c) Os bezerros eram adorados pelos hebreus e sacrificados no altar. A Bíblia diz que Absalão, por não ter mais bezerros, matou uma fêmea da qual seu filho gostava muito. Chateado, o filho ficou ao lado do altar, ‘pensando na morte da bezerra.

Alternativa c

Consciência negra: uma semana e sempre

A comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em todo o país no dia 20 de novembro, marca a programação do Centro Cultural Venda Nova,  entre os dias 23 e 26 deste mês. Sarais, oficinas, espetáculos de dança e teatro afro-brasileiros são oferecidos gratuitamente na Rua José Ferreira dos Santos, 184, no bairro Novo Letícia, em Belo Horizonte.

Veja a programação completa abaixo e marque na agenda:

Dia 23/11, quarta-feira, a partir das 14h
Sarau lítero musical com Aline Cântia.

Dia 24/11, quinta-feira, a partir das 15h
Oficina de Dança Afro com a companhia Carlos Afro & Cia. A programação da oficina inclui a apresentação de ritmos, percussão ao vivo e dança brasileira de matriz africana e afro-brasileira. Para participar, ligue para (31) 3277-5533 e inscreva-se.

Dia 24/11, quinta-feira, a partir das 19h30
Espetáculo Fragmentos Afros da Dança Brasileira com a companhia Carlos Afro & Cia. O espetáculo aborda as origens étnicas do índio e do africano e os encantos tribais que revelam a cultura brasileira.

Dia 25/11, sexta-feira, a partir das 9h30
Palestra: História da África com Kelly Cardoso (Carlos Afro & Cia). A palestra vai abordar as contribuições dos povos africanos para a cultura dos brasileiros. Para participar, ligue para (31) 3277-5533 e inscreva-se.

Dia 25/11, sexta-feira, às 18h30
Espetáculo da Cia Baobá de Dança – Minas. Temáticas como a oralidade, memória, ancestralidade e identidade e o saber dos mestres populares fazem parte da performance.

Dia 25/11, sexta-feira, a partir das 19h30
Puxada de Rede com  o graduado Jabuti, da Fundação Internacional de capoeira Artes das Gerais. Apresentação de uma “Puxada de Rede”, manifestação da cultura afro-brasileira que retrata o ritual da pesca. Uma roda de capoeira encerra o espetáculo.

Dia 26/11, sábado, a partir das 10h30
Apresentação Musical do Grupo Casa Voz com regência de Eduardo Pio. O grupo, com formação na Região de Venda Nova, apresenta repertório composto por canções que exploram a cultura mineira e seu caráter regional. Uma performance que inclui uma amostra dos sons que são produzidos pelo corpo integrado a batidas rítmicas e  melodias cantadas faz parte do espetáculo.

Dia 26/11, sábado, às 13h
Apresentação da Velha Guarda do Samba. Composições autorais e sambas enredo das escolas de samba da capital mineira estão na programação do grupo, formado na metade do século passado.

Neste mês, o Centro Cultura Venda Nova também promove oficinas de literatura. Veja a programação:

Dia 16/11, quarta-feira, a partir das 14h30
Poema e letra de música com Sérgio Fantini. Roda de Leitura de poemas e letras de música trazidas pelo público e discussão em torno do processo criativo de poetas e letristas.
Público: Jovens e Adultos
Vagas: 20

Dia 30/11, quarta-feira, a partir das 14h30
A bola rola nestas Letras com Ana Amélia Lage Martins. Leitura compartilhada e discussão de contos e crônicas sobre futebol de Luís Fernando Veríssimo, Carlos Eduardo Novaes e Carlos Drummond de Andrade.
Público: acima de 15 anos
Vagas: 20

Além de manter uma biblioteca comunitária, o Centro Cultural de Venda Nova também oferece outras atividades permanentes, como aulas de dança contemporânea para crianças, grupo de estudos de violão, oficina de tecelagem, de capoeira e encontros de liang gong (técnica que une os conhecimentos da Medicina Tradicional Chinesa e a Moderna Medicina Ocidental).

Para obter mais informações e se inscrever para as oficinas, ligue para (31) 3277-5533.

O falinventar do moçambicano Mia Couto

Nossa conversa sobre o Mia Couto não acaba no programa 17. O Pra Ler ainda separou uma entrevista sobre o autor africano com a pesquisadora da UFRGS, Jane Tutikian, que fala sobre literatura, política, história e reinvenção da linguagem.

Qual é a importância da obra do Mia Couto pra literatura africana contemporânea?

Ele é uma voz singular dentro do panorama da literatura africana de língua portuguesa. A singularidade da voz do Mia Couto está justamente no fato de não ter uma literatura engajada. O engajamento dele é estético. Ele tem uma pesquisa estética extremamente forte, que termina resultando numa linguagem poética muito criativa. Não estou dizendo que é descomprometido com algum projeto maior. Ele é comprometido com um projeto de moçambicanidade – resgatar o que há de mais autêntico da cultura africana. Transformar o que há de mais autêntico no processo identitário africano em pesquisa estética, em arte no sentido mais amplo da palavra.

Quais são os principais temas tratados por ele?

Ele inicia com poesias e a grande afirmação dele é na expressão poética. EComeça com poemas e também se manifesta através da crônica e do conto. Ele se movimenta por todos os gêneros com a mesma capacidade inventiva. E a estrutura da sua obra não é outra que não o homem moçambicano.

Quais são os aspectos políticos e sociais da obra de Mia Couto?

Ele não faz uma literatura engajada dentro do modelo mais comum, que é o neo-realismo. Não é este o viés escolhido por Mia Couto. Isso não quer dizer que se afaste do compromisso político e social que ele tem com o seu povo. Ele deixa muito claro desde o início que não é português, mas moçambicano. O que ele busca é mostrar justamente a identidade do povo. Isso é importante porque durante todo o processo de colonização, Portugal usou a superposição cultural – o abaixamento da cultura dominada pela dominante. A partir desse momento, não existe a sua história, o seu passado. Esse começo de dominação ideológica é justamente na língua portuguesa, não se pode falar mais o seu dialeto.

E não existe um quadro em Moçambique que tenha condições pro auto-gerenciamento. Portugal não cumpriu todas as fases da descolonização. O homem moçambicano se pergunta aquilo que é. Ele não pôde voltar a ser aquilo que era antes da chegada dos portugueses. Tem em si a cultura europeia que foi imposta pela cultura colonial. Esse resgate da identidade é fundamental  –  e a identidade não é fixa  – para que o povo possa ganhar a sua autonomia e seu próprio destino. Ele resgata a tradição e trabalha esteticamente.

Do ponto de vista da linguagem, quais são as peculiaridades da obra do Mia Couto?

Tenho visto muitos trabalhos acadêmicos que comparam o Mia Couto com o Guimarães Rosa. Sobretudo aqui [no Brasil], ele enfatiza muito que tem uma influência. Acho que o Guimarães Rosa pode ter alavancado esse processo de criação. Mas o processo do Mia Couto, mesmo quando ele trabalha com neologismo, é totalmente diferente. Rosa tinha uma preocupação regional, não é o que faz o Mia Couto. Ele faz um processo de recriação da linguagem, de transgressão. A preocupação não é regional, mas estética. Quando ele recria as tradições moçambicanas em uma linguagem poética, ele está tomando uma atitude política. Ele faz uma transgressão do colonizador porque se reinventa, ele se liberta.

Dica da pesquisadora: Terra Sonâmbula

Primeiro romance do Mia Couto, já é considerado um clássico da literatura africana de língua portuguesa. É justamente aí que ele começa todo esse projeto de moçambicanidade.

Ao pé da letra

Expressões populares foi o tema da reportagem do nosso último programa. Elas estão em nossa boca o tempo todo e, quase sempre, a gente nem para pra saber de onde elas vêm. Mas, arriscar a origem de termos e palavras pode ser muito divertido. Resolvemos criar nossas próprias explicações para algumas delas. Mas atenção: no meio de duas alternativas que são verdadeiros papos-furados, existe uma explicação correta. Será que você consegue distinguir? Para saber a resposta certa , selecione a linha abaixo da última alternativa de cada questão.

Qual é a origem mais provável para a expressão ‘chorar as pitangas’?

a) Pitanga é uma fruta originária do sudeste asiático. No dialeto de antigos povos nativos, a palavra chorar tinha o mesmo significado que amadurecer.

b) Pitanga vem do tupi (pyrang) e significa vermelho. A expressão significa ‘chorar até os olhos ficarem vermelhos’.

c) As tribos tupis acreditavam que a pitanga tinha a propriedade de revigorar as pessoas e trazer de volta a alegria

alternativa b

Por que o identificador de chamadas telefônicas se chama BINA?

a) Era o nome da companhia telefônica onde trabalhava o técnico belga Claude Leterme, que inventou o aparelho

b) É a abreviação de B Identifica Número A e BINA 82 foi o nome do primeiro identificador de chamadas do mundo, lançado em Brasília

c) A novidade foi inventado por um técnico gaúcho no começo dos anos 70 e Alcebina (que tinha o apelido de Bina) era o nome de sua esposa

 alternativa b

alternativa b

De onde surgiu a expressão ‘elefante branco’?

 a) O extravagante rei Luís XIV, da França , certa vez pediu aos seus súditos que gastassem o quanto fosse preciso para trazer um filhote de elefante albino da África

b) Nas antigas apresentações circenses dos séculos XIX, anunciar um elefante pintado de branco era o mesmo que dizer coisas absurdas

c) No antigo Sião – hoje Tailândia – o rei presenteava seus inimigos com um elefante branco. Como o animal era sagrado, os desafetos do monarca eram obrigados a gastar uma nota para tratar do bicho

alternativa c

Qual foi o primeiro ‘gol de placa’?

a) A expressão surgiu em São Paulo, no começo do século XX, quando as crianças montavam campos de futebol com tocos de madeira e placas de papelão.

b) O presidente do Timão durante a Democracia Corintiana, Vicente Mateus, deu uma placa banhada a ouro ao atacante Basílio, que pôs fim a um jejum de 24 anos do time sem campeonatos estaduais

c) Em 1961, o então jornalista esportivo Joelmir Beting achou o gol de Pelé contra o Fluminense tão bonito que pediu que fosse fixada uma placa em homenagem no saguão do Maracanã.

alternativa c

Extraído de:
A Vida Íntima das Palavras – Deonísio da Silva
A Casa da Mãe Joana – Reinaldo Pimenta

Veja através

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Por que não ocupar o espaço com interferências questionadoras?

Por que não construir cidades onde a vida tenha mais qualidade e seja mais instigante e criativa?

Essas são perguntas que orientam o trabalho de Marcelo Terça-Nada! e Brígida Campbell. Desde 2002, eles realizam intervenções artísticas no espaço urbano. Seus projetos reivindicam a cidade como lugar de convívio e campo de articulação de proposições artísticas. E a literatura aparece de forma especial: é com a linguagem poética que as intervenções da dupla Poro chamam a atenção para questões que merecem debate. Seus trabalhos estabelecem discussões sobre os problemas da cidades e trazem à tona aspectos que se tornam invisíveis pela vida acelerada na metrópole.

Marcelo e Brígida lançaram este ano o livro “Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos”. A obra apresenta o conjunto da produção artística da dupla, de 2002 a 2010. Além de imagens dos trabalhos, o livro traz textos escritos por autores de diferentes áreas como arquitetura, comunicação, história e ativismo.

Intervenções artísticas e literatura foi o tema da reportagem do nosso último programa. Se você ainda não ouviu, tá aqui

Papo com o Zé

_ São quantas perguntas?

Ele disse isso quase pegando os roteiros da minha mão. Me esforcei para recuperá-los.

_ São só oito.

Eram nove, mas menti para impactá-lo menos. Em vão. Ele fez uma cara de ligeira pressa e eu fui tratando de engatar logo a primeira pergunta.

Entrevistar José Hamilton Ribeiro me deu muito medo, confesso. Momentos antes, expliquei a dimensão do meu problema a um amigo que estuda Medicina: “é como se você se aventurasse a fazer uma cirurgia plástica no nariz do Ivo Pitanguy”. Meu amigo franziu o dele, fez cara feia, e eu fui ainda mais preocupada em direção à Academia Mineira de Letras.

O caso é que o Zé Hamilton é um dos maiores jornalistas do país. Suas reportagens marcaram época na Revista Realidade e ele recebeu, por três vezes, o prêmio Esso, a maior premiação de jornalismo do país. Mas seu jeito amável e bem humorado nos faz sentir quase em um bate-papo. Digo quase porque algumas circunstâncias inevitavelmente se sobrepõem à conversa amigável. Uma delas é o tempo. Foi por volta da quarta pergunta que eu senti que as coisas começavam a se fragilizar entre nós. Ele olhava pras outras pessoas que também queriam entrevistá-lo, em tom de súplica.

_ Essa é a última, prometo.

José Hamilton deu um suspiro de alívio.

Devo me defender: nossa conversa durou apenas nove minutos, um tempo razoável até. Mas foi o suficiente para que eu causasse um problema. A palestra na Academia já ia começar e uma moça que estava na fila para entrevistá-lo ficou sem tempo para falar com ele.

Mas o Zé é habilidoso e, como eu disse, amável. Logo combinou de encontrar com ela no dia seguinte para um café da manhã no Cheverny Apart Hotel, onde estava hospedado.

Saí de gravador na mão e inveja no coração. Fiquei imaginando um café da manhã com Zé Hamilton, no Cheverny… Que boa conversa não terá sido essa hein? E, diga-se de passagem, que belo café!

 

Minha entrevista com José Hamilton Ribeiro está aqui, na íntegra.

 

 

 

Metamorfose frame a frame

A arte da Metamorfose. A metamorfose da arte. Mais de 90 anos de narrativa atualizados em 2 min 30 s e nada mais que 600 frames. O vídeo Cafeka, da Alopra Estúdio, produtora de Porto Alegre, remonta, por meio de uma animação em stop motion, parte da narrativa do livro Metamorfose, escrito em 1915 por Franz Kafka.

Cada um dos planos – embebidos por sons ora descompassados, ora tão precisos quanto o tictac – representa a angústia e as surpresas que a obra do escritor evoca:

Leia um trecho de Metamorfose:

 “Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.

Que me aconteceu? – pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada.

Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia!

Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado – ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? – cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara”. (Franz Kakfa)

Para ter acesso ao livro Metamorfose, acesse o site Cultura Brasil.

Rob Gordon: amor em forma de crônicas e quadrinhos

Pode ser complexo para um casal com 25 anos de casamento explicar como começou a paquera e em que momento nasceu o amor. Para o escritor e jornalista Rob Gordon, é fácil dizer como surgiu o interesse por literatura e pela escrita. Criado em volta de bibliotecas e revistas em quadrinhos, o autor, que também se aventura pelo universo dos blogs, relatou em entrevista ao projeto Pra Ler, que contar histórias é a paixão verdadeira da vida dele.

O jornalista contou também como surgiu a ideia do projeto Terapia, uma HQ digital que ele desenvolveu em parceria com o desenhista Mario Cau. Durante a conversa, Rob Gordon reflete sobre o desafio de transferir a emoção da crônica para o quadrinho e sobre o relacionamento com as personagens. Ele também comenta sobre a influência da música no ritmo do texto.

Ouça a entrevista feita por Jessica Soares com o escritor e jornalista Rob Gordon:

Para ouvir o programa de rádio no qual a entrevista foi ao ar, clique aqui. Você pode conhecer mais sobre o escritor Rob Gordon nos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.

O programa radiofônico Pra Ler vai ao ar todas às quintas-feiras na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM ou www.ufmg.br/radio) às 16h15.